Monday, December 5, 2011

A Pipoca Mais Doce: A Bazaar Chiado já abriu! Alegria, alegria!

Um novo espaço de (boa) moda nunca é demais

A Pipoca Mais Doce: A Bazaar Chiado já abriu! Alegria, alegria!: E pronto, a nossa lojinha magnifique já abriu! Foi no sábado, ainda assim em modo experimental.

Tuesday, November 29, 2011

Uma nuvem que desaba em chuva

  
A Joalharia partilha a linguagem da antigo alquimia e talvez por isso tenha tardado a ser assimilada pelos teóricos das Artes. Mas no MUDE, em Lisboa, é possível observar como Kukas criou parte da Joalharia Contemporânea portuguesa nos anos 60 e não cessou de a reinventar desde então. Até 19 de fevereiro, é possível descer aos antigos cofres-fortes de uma instituição bancária e observar estes tesouros feitos de prata, topázios, coral e águas marinhas. A curadoria é de Cristina Filipe, outro nome grande da nossa Joalharia. 

Monday, November 28, 2011

Madrid recorda Yves Saint Laurent


Até 8 de janeiro, uma carreira na moda apresentada como uma retrospetiva de artes. Na Fundación Mapfre, Sala Recolectos. Nada é demais para o homem que inventou o smoking feminino.

Wednesday, November 23, 2011

Uma escola que seja sua/Vinte anos de JL

Gostava de escrever isto de forma a não vos sobressaltar, mas não há maneira: em 2006, no Afeganistão, um director de escola foi decapitado diante da família por um grupo de homens armados. Cometera o «crime» de afrontar uma das leis fundamentais dos talibãs, dando aulas a meninas. No dia seguinte foi preciso explicar o sucedido a estas crianças: não ?apenas? o horror da execução, como também o facto, irremediável, de que mais ninguém ousaria levá-las à escola. Infelizmente, o Afeganistão está longe de ser o único país a favorecer deliberadamente o analfabetismo feminino. Segundo o relatório da ONG Internacional Save the Children, em 70 países do planeta boa parte das meninas são obrigadas a entrar no mercado de trabalho em plena infância. Na Etiópia ou na Nigéria, três quartos das alunas têm de deixar a escola para dar lugar aos rapazes. Mesmo na China, gigante industrial, o índice de sub-escolarização das raparigas é muito elevado. Estima-se que, ao todo, haja no mundo cerca de 200 milhões de meninas impedidas de frequentar a escola. O que estes governos parecem não entender, para além do respeito pelos direitos humanos mais elementares, é que, como demonstram todos os estudos, o livre acesso do sexo feminino à escola está directamente associado à baixa dos índices de subnutrição, mortalidade infantil, propagação da SIDA e a uma melhor situação económica. Em contrapartida, uma jovem sem escolaridade está muito mais susceptível à pobreza, aos casamentos forçados, à violência sexual e aos maus tratos e tem muito mais possibilidade de criar filhos analfabetos, subalimentados, vítimas de doenças crónicas. Como travar este flagelo? Em 2000, 189 países assinaram a Declaração Milénio, lançada pelas Nações Unidas, com vista à obtenção da paridade escolar em 2015. Oito anos decorridos, será esta uma meta realista? Três regiões do mundo assinalam ainda atrasos importantes: o Médio Oriente e o Norte de África, a África Ocidental e Central e no Sudeste asiático. Como se escreve no estudo encomendado pela UNICEF, The Gap Report ? Gender achievements and prospects in Education, «já falhámos o objectivo da paridade em 2005, não podemos fazê-lo também em 2015.» No primeiro mundo, em que as mulheres ainda enfrentam tantos «obstáculos de cristal» (na política e no quotidiano laboral, por exemplo), não se pode continuar a olhar esta causa como uma acção de caridade ou beneficiência. No mundo globalizado deixou de haver lugar para exotismos. As ondas de choque provocadas pela borboleta, que bate as asas na China, são cada vez mais poderosas.

Sunday, November 20, 2011

Vinte anos de reportagens no JL/Nadir Afonso


Suave provocação



"O sucesso resulta de uma sucessão de desastres". O aforismo, sentencioso e catastrófico, ouviu-o Nadir Afonso, em Paris, a Jean Cocteau. Estava-se no pós IIª Guerra Mundial e o escritor e cineasta francês instruía assim o jovem sobre a necessidade de preserverar contra ventos, marés e caminhos ilusórios. Agora, prestes a completar 90 anos, o artista plástico lembra a sua vida passada como um longo tecido em que se cruzam casos e vozes há muito idos, figuras da aristocracia cultural do século XX (para além de ter privado com Cocteau ou Fernand Lèger, trabalhou com  os arquitetos Le Corbusier e Oscar Niemeyer) à mistura com companheiros de escola, em Chaves, ou o cigano que, encontrando o seu pai a caminho do registo civil, recomendou que se desse à criança o nome persa de Nadir.
A figura franzina do artista, nascido em Chaves a 4 de dezembro de 1920, reserva em si uma grande determinação física e mental ("sou um coca-bichinhos", diz com a boa disposição gentil que o caracteriza). Sempre foi assim. O filho de Palmira Rodrigues Afonso e António Maria Afonso, poeta, empregado das finanças, mestre escola e empresário, ainda menino, afrontava o fascismo quotidiano personificado no médico da escola, jogando o futebol que aquele insistia em vedar-lhe dada a sua compleição frágil. "Ainda treinei no Futebol Clube do Porto, no antigo estádio da Rua da Constituição", recorda, "mas nunca passei de ponta esquecida". As histórias da sua meninice, num país em tudo diverso do de hoje, são as que mais lhe acodem à memória, agora douradas pela saudade. Recorda a "criança mais prodigiosa" que conheceu, Valdemar Rosa de seu nome, "de uma inteligência aguçadíssima, capaz de nos sugerir, a mim e a meu irmão histórias íncriveis, em que acreditávamos piamente." Morreu tuberculoso, poucos meses depois de ter sido obrigado a deixar a escola, num tempo em que as doenças e a miséria dizimavam crianças e adolescentes. "O meu irmão e eu, como tínhamos uma roupinha decente, passávamos a vida a ser convidados para levar as borlas dos caixões que transportavam para o cemitério os nossos amigos e colegas de escola."
Mas nem tudo era luto. Nadir Afonso recorda também as grandes partidas por si feitas aos seus contemporâneos. Como aquela vez que, tendo sido surpreendido à meia-noite, parado sobre a passagem de pedras que, em Chaves, permitem a travessia do rio Tâmega, convenceu um amigo de que esperava que as águas lhe trouxessem carta vinda de Espanha. "A questão é que, minutos antes, sobre a ponte romana, eu lançara um envelope ao rio para saber quanto tempo é que este demoraria a chegar à dita passagem. Este tipo de problemas sempre me fascinou, mas ele sem nunca saber po rque estava eu ali, ficou estupefacto ao ver-me tirar a carta da água. Vinha dirigida a mim e fora remetida em Salamanca."

Arte vs arquitetura
Esta inquietação com o ritmo e a Matemática nasceu-lhe bem cedo. Aos quatro anos desenhou um círculo perfeito numa parede de casa e aos 17 ganhou um concurso nacional de pintura. Assim persuadido, quis inscrever-se na Escola de Belas-Artes do Porto, mas, uma vez que completara o ensino liceal, o  empregado da secretaria convenceu-o a matricular-se em Arquitetura. "Nessa época, os cursos de Belas-Artes eram considerados menores, destinados a alunos que, em certos casos, nem tinham a instrução primária." Isso e a eterna angústia com a estabilidade financeira levou-o para um curso (e para uma profissão) que nunca o empolgou.
Em 1946, trocou o Porto por Paris, passando a sua assinatura de Nadir Rodrigues para Nadir Afonso. Na capital francesa, foi providencial a ajuda do pintor brasileiro Cândido Portinari, que por ele intercedeu junto do Governo Francês para obtenção de uma bolsa estudo que lhe permitisse frequentar a Escola Nacional Superior de Belas-Artes ("o Portinari era membro do Partido Comunista Brasileiro e, graças a isso, tinha alguma influência junto das autoridades francesas, então de esquerda).A residir no Bairro Latino, viveu intensamente a boémia artística da cidade, contactando com Jean Cocteau, como acima se disse, e Fernand Lèger. Ao terminar a bolsa (que tinha apenas um ano de duração) valeu-lhe o arquitecto Le Corbusier, com quem trabalhou quer em arquitetura, quer em pintura: "Fui várias vezes à sua casa, no Bosque de Bolonha, para o ajudar nas suas telas. Era um homem que gostava de ensinar, mas também apreciava que o ajudassem nos seus trabalhos."
Nadir Afonso não se deslumbrou com tão brilhante convivência. Manteve (e desenvolveu) a sua concepção estética muito própria que já suscitara muitas reticências em Portugal. "Quando, em 1948, defendi uma tese intitulada A Arquitetura não é uma Arte, os meus pares zangaram-se muito comigo", recorda. "Mas basicamente eu demonstrava que a arte não é regida por qualquer obrigação de utilidade, enquanto os arquitetos trabalham todos os dias com critérios de funcionalidade." A suave, mas deteminada provocação, com que sempre abordou ambas as linguagens começava  a desenhar-se.
A Le Corbusier, seguiu-se, em 1951, o contacto com outra referência maior da Arquitetura Contemporânea: o brasileiro Oscar Niemeyer, primeiro no atelier deste no Rio de Janeiro, e, mais tarde, em São Paulo, atelier de que Nadir Afonso foi fundador e também coordenador ("embora não tivesse qualquer apetite ou vocação de comando", diz de si mesmo, nessa experiência). Ao fim de três anos de amizade e muitas divergências ("foi por causa delas que Niemeyer me mandou para São Paulo"), Nadir voltou à Europa. Zangara-se com o Brasil na sequência de uma fraude ocorrida num concurso de cartazes para comemorar os quatrocentos anos da fundação de São Paulo, em que participara.
De regresso a Paris, viveu anos que hoje lembra como de "arquitetura necessária e pintura obsessiva". Fascinado pela Arte Cinética, estabeleceu contactos com autores como Victor Vasarely, Richard Mortensesn, Auguste Herbin e André Bloc. Em 1958, a sua pintura Espacilimité (que hoje pode ser vista no Museu do Chiado) seria exposta, em Paris, no Salão das Novas Reallidades. No mesmo ano, publicava, também em França, o seu primeiro trabalho de reflexão teórica, La Sensibilité Plastique. No princípio dos anos 60, vendia a sua primeira tela, momento que não mais esqueceu: "Foi a um americano, decerto muito rico, que queria comprar aquele e mais outros quadros. Mas eu não queria separar-me deles e só lhe vendi um, o que o deixou estupefacto."

Consagração e isolamento
As décadas seguintes marcaram a consagração nacional e internacional de Nadir, que aos 50 anos de idade se ofereceu o luxo de deixar de vez a Arquitetura. À representação de Portugal na Bienal de Arte de São Paulo (em 1961 e 1969), seguiram-se dezenas de individuais em espaços como o Centro Cultural Gulbenkian, em Paris, várias galerias novaiorquinas, a Art-Service de Paris (em 1976, 1978, 1988, 1991, 1994 e 1996), a Embaixada de Portugal em Brasilia ou o Centro Cultural de Orense, para além de 54 exposições realizadas, entre 1949 e 1967, em galerias nacionais. Foram-lhe atribuídos os Prémios Nacional de Pintura (em 1967) e Amadeo de Sousa-Cardozo (em 1969), está representado em museus e colecções particulares de Lisboa, Porto, Amarante, Rio de Janeiro, São Paulo, Budapese, Paris, Wurzburg e Berlim. Já este ano, foi feita uma retrospectiva da sua obra, em simultâneo nos Museus Soares dos Reis e do Chiado. Isto sem falar nos painéis que concebeu para a estação de metropolitano dos Restauradores, em Lisboa. Nadir não é, todavia, homem de posar sob holofotes. Ao ritmo trepidante da fama prefere o recolhimento do estudo e da reflexão, de exigências bem diferentes: "Fui durante largos períodos para Chaves, onde reencontrava pedaços da cidade da minha infância, revisitava o Tâmega, brincava no jardim e reencontrava os amigos de sempre. Nessas ocasiões, não só me dedicava à Pintura como produzi muita reflexão teórica." Testemunham-no livros como O Sentido da Arte (1983); Universo e o Pensamento (2000, reeditado já este ano); Sobre a Vida e Obra de Van Gogh (2002); Da Intuição Artística ao Raciocínio Estético (2003); As Artes: Erradas Crenças e Falsas Críticas (2005); Nadir face a face com Einstein (2008) e O Tempo não Existe - Manifesto (2010). "Discordo da estética vigente, aliás, sempre discordei", explica. "Acredito que as artes plásticas não são a expressão dos mundos interiores dos artistas mas obedecem a leis matemáticas que não são perceptíveis pela razão, mas pela intuição e pelos sentidos." No seu último livro (o referido O Tempo não Existe), Nadir sintetiza assim uma demanda filosófica que o ocupa desde há 40 anos: "Devemos aceitar este princípio difícil: existe no artista uma hipersensibilidade que elabora geometrias matemáticas imponderáveis. Ele sente e não compreende. Quem procura compreender é o homem inteligente e culto, é o esteta que abraçou por missão explicar aquilo que não é explicável."
Pai de cinco filhos (nascidos entre 1948 e 1989), o artista deixará de si ainda a Fundação com o seu nome, em Chaves, e um centro de artes em Boticas, concelho onde nasceu sua mãe. Este, cuja inauguração está prevista para agosto do próximo ano, é de iniciativa municipal, terá uma exposição permanente e promoverá o debate em torno da arte contemporânea. O segundo, aguarda ainda a edificação de uma sede, mas já vai dando sinal de si, como a belíssima edição da poesia do pai do artista - Artur Maria Afonso - acompanhado por pintura de Nadir. A estas evocações, o olhar vela-se-lhe de saudades. Não podia ser de outro modo: na idade em que está, bastam-lhe os dedos de uma mão para contar quantos amigos da juventude lhe restam. Com Laura Afonso, sua mulher, enumera-os devagar, mas o sorriso com que termina não é de resignação. Mas de alegria pelo muito e bem que soube viver. 

  Lisboa, novembro de 2010

Saturday, November 19, 2011

A pele que eu habito, de Pedro Almodóvar

A mulher que viveu três vezes

A vingança partilha a natureza gélida das lâminas: dá-se melhor com o segredo dos blocos operatórios do que com a opulência dos teatros de ópera. Também por isso, Pedro Almodóvar, ocupado com uma história de vingança (decerto uma das mais cruéis e minuciosas da História do Cinema), abandonou a sua proverbial exuberância em favor de uma direção artística minimalista ("quase japonesa", como disse em conferência de imprensa, no Festival de Cannes, a estrela do filme, o outrora "chico Almodóvar", Antonio Banderas). Á boa maneira dos thrillers norte-americanos da década de 40, aqui apenas manda a alma negra de um homem, a quem a Medicina investiu de poder extraordinário. Não há lugar para saltos altos, bâtons escarlates e gargalhadas sonoras na noite de Madrid. Apenas um frio de sepulcro e a loucura de um Pigmaleão da Cirurgia Plástica, esquecido de que o carteiro da morte toca sempre duas vezes.
Engana-se, todavia, quem vir em tal depuração e gelo uma experiência a-típica na obra do cineasta de A Flor do Meu Segredo ou Tudo sobre a minha Mãe, o homem que tornou mundialmente famosa a movida madrilena. Em A Pele onde eu Habito, reencontramos vários dos temas caros e recorrentes na sua filmografia, nomeadamente o regresso às origens, à família e ao indispensável confronto com o passado não resolvido (presentes em filmes como Volver ou Tudo sobre a Minha Mãe), a vingança sanguinária (como esquecer Gael García Bernal, em A Má Educação?) e a questão da identidade sexual, omnipresente de forma explicíta em toda a filmografia de Almodóvar. Do mesmo modo, a aproximação ao film noir de inspiração americana, com a sua ambiência gélida, não é nova. Há muito que o realizador a "namorava", quer no conteúdo, quer na forma plástica. Em Má Educação, de 2004, essa aproximação, através da história de um rapaz abusado sexualmente num colégio religioso, que, uma vez na idade adulta, será movido pela ideia de vingança, tornava-se óbvia, desde a banda sonora à intriga. Em Abraços Desfeitos, uma mulher (Penélope Cruz) emparedada entre a vida confortável com o amante que a sustenta e o sonho de uma outra vida , com o homem que, de facto, ama, remete inevitavelmente para filmes como O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes ou Pagos a Dobrar e para as inesquecíveis personagens neles interpretadas por Lana Turner e Barbara Stanwyck respetivamente.
Antonio Banderas, que tem em A Pele em que Habito o papel da sua vida, compõe uma tão personagem tão terrífica que facilmente a imaginamos interpretada por Christopher Lee ou, numa versão mais hitchcockiana, por James Mason. Elegante, de gestos felinos e modos irrepreensíveis, o Dr. Robert é um Ivo Pitanguy que a suprema dor do abandono e da perda há-de transformar num executor implacável. No segredo paradisíaco de "El Cigarral", ele auto-confunde-se com Deus e sente-se tentado a subverter as leis da vida e morte, devolvendo o rosto das mulheres que amara e perdera (a mulher e a filha) no ser que cria em laboratório. Sonhava com uma mulher que vivesse três vezes, mas os homens não são camaleões e a pele, que se muda no bloco operatório, não é senão a morada de um ser único e irrepetível. Demasiado tarde para seu próprio bem, esta personagem compreenderá  que tal como não se devolve o sopro da vida a quem a perdeu, não basta mudar o corpo, o rosto e até o sexo de alguém para o transformar num outro. Esses são os limites da Medicina, como os da própria vida. Sobretudo se o espírito for forjado pelo aço de um grande objetivo. No caso, o de se vingar e sobreviver.

Tít. original: La Piel que Habito. Int: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Fernando Cayo. Espanha.2011. 120 minutos. Estreia 

Friday, May 6, 2011

"Savage Beauty", Alexander McQueen no Metropolitan Museum of Art, NY

“You’ve got to know the rules to break them. That’s what I’m here for, to demolish the rules but to keep the tradition" Alexander McQueen (1969-2010)




Thursday, May 5, 2011

Snu Abecassis, um relâmpago de firmeza

Apresentados por Natália Correia, Francisco Sá Carneiro e Snu Abecassis viveram a mais apaixonante história de amor do Portugal contemporâneo.
Mas a dinamarquesa (1940-1980) foi muito mais do que a mulher atrás de um grande homem: fundadora das Publicações Dom Quixote, leitora e estudiosa insaciável, deixou uma marca indelével na Cultura portuguesa no pós-25 de Abril.
A esse percurso somou a firmeza e a determinação com que enfrentou a hipócrita vida política durante os quatro anos em que viveu com o líder do PSD. A sua vida, tão breve como intensa. é recordada numa exposição, no edifício sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Saturday, April 30, 2011

O estilo a quem o trabalha



   Como Coco Chanel bem sabia, a moda que vem da rua tem um impacto social muito diferente da que é imposta a partir dos ateliers. Nos tempos que correm, já nenhum criador ignora o poder da cultura urbana sobre a indústria da moda. Que o digam os autores de blogues, como the cool hunter ou the sartorialist, de influência só comparável ao gozado pela Vogue ou pela Harper's Bazaar. Mas Portugal já tem o seu style hunter, como se pode ver em http://oalfaiatelisboeta.blogspot.com. Falámos com José Cabral, um homem com olhar de lince para quem passa.

O que o levou a meter-se nesta aventura de fazer um blogue regularmente atualizado sobre moda urbana?
O Alfaiate Lisboeta apareceu simplesmente porque sentia falta de ter um projecto pessoal. Algo que representasse um contraste com o meu dia-a-dia laboral. Algo que me fizesse sentir que era capaz de gerar qualquer tipo de processo criativo. O facto de esse projecto se dedicar de alguma forma à moda urbana decorre essencialmente de duas coisas: eu ter tido sempre tendência a reparar nas pessoas e naquilo que elas traziam vestido e de me ter deparado com publicações estrangeiras do género que me serviram de inspiração.

O que lhe desperta o clique? O que o faz escolher alguém (ou algo) em detrimento de outros?
Eu não escolho pessoas. Simplesmente há algumas que me despertam a atenção. Obviamente que, quanto não existe outro registo vivido que não o visual, é de esperar que o que as pessoas vestem seja aquilo que mais nos chama a atenção.

A "rua" já dita regras na moda?
Dizem que sim. Muito honestamente não acho que seja a pessoas mais indicada para lhe dar essa resposta. Teria que me pôr num lugar que ocupei durante um curtíssimo período de tempo – no lugar de alguém que visita blogues de moda de rua mas não tem um. Se fizer esse esforço de deslocalização temporal posso-lhe dizer que me senti inspirado por imagens que encontrei em alguns desses blogues. Mas muito sinceramente ainda me custa muito a acreditar que alguém vá ao Alfaiate Lisboeta retirar ideias para a sua indumentária. Ao meu blogue pessoal? Juro-lhe...custa-me a crer.
        
Para si, o que é a moda? E o que pode representar num mundo em crise?
A moda para mim é um conceito muito genérico que joga, essencialmente, com aquilo que temos por belo e com aquilo que julgamos valorizado pelos padrões sociais vigentes. Não me parece que a crise prejudique a moda de forma muito diferente daquela que condiciona tantas outras indústrias. A noção de que em tempos de crise a fronteira entre o essencial e o supérfluo se torna óbvia aos olhos de todos faz sentido no plano teórico mas a moda e tudo o que a ela está ligado tem hoje uma importância muito mais marcada do que a maioria de nós se dá conta ou se permite admitir.

Que tipo de roupa e acessórios o fazem vibrar?
Gosto de tudo o que é de inspiração sartorial (relativo a alfaiataria). Mas também, pelo preciso contraste, sou apreciador dos mais puros estilo desportivo e streetwear.

Revista de imprensa - em leitura

www.lire.fr   www.vogue.fr 
          www.thegentlewoman.com

Monday, April 25, 2011

Lembram-se de A Caixa?


A recordação tem o carácter dfuso de um sonho: uma versão de mim com tranças,levada pela mão muito carinhosa de alguém muito mais alto. Vou com o meu avô materno, tenho uma mala de escola amarela com fechos reflectores e ele uma garrafa de vinho para o almoço de um dia com muito sol. Subimos as escadinhas de São Cristóvão, que ligam a Baixa à Mouraria. Lá em cima, o largo, a Igreja, a drogaria do sr. José, cheia das pequenas tentações que apeteciam a uma menina de tranças.

Quase 25 anos depois (em 1994), Manoel de Oliveira pegou no cenário destas memórias e filmou A Caixa. Com Luís Miguel Cintra, Ruy de Carvalho, Glícinia Quartin, Beatriz Batarda, Rogério Samora, Diogo Dória, Miguel Guilherme, Sofia Alves, entre outros. Hoje voltei às Escadinhas. Estão exactamente como as deixei.i

Thursday, April 21, 2011

O jornalismo como posto de escuta


«Eres chilota?». Sentada no lobby de um hotel de Lisboa, uma versão de mim própria aos 20 e poucos anos esperava nervosamente pelo escritor chileno Francisco Coloane, a quem este mesmo jornal mandara entrevistar quando, a convite da Teorema, sua editora portuguesa, veio ao nosso país. Pressentindo talvez essa ansiedade, essa minha certeza de me ficarem curtas as leituras e os anos para entrevistado de tal calibre, quis saber de mim, para quem trabalhava, de que histórias gostava e se o tom moreno da minha pele não viria, afinal, das mesmas latitudes austrais de onde ele vinha: «Seria chilena? Não teria um avô oriundo de tão longínquas terras que justificasse a parecença?» No seu olhar, havia a gentileza e aquela forma particular de curiosidade pelo outro que são o resultado de uma vida longa e intensamente vivida, no caso dele entre a Terra do Fogo e o Estreito de Magalhães, onde foi marinheiro, domador de potros, pesquisador de petróleo e o narrador de excepção que Luís Sepúlveda não hesitou em considerar seu mestre dilecto.
Francisco Coloane morreu em Santiago do Chile, em 2002, aos 83 anos, sem voltar a Portugal e, como tal, sem me dar a oportunidade de lhe fazer entrevista mais fundamentada, mas deu-me a perceber que este meu ofício de entrevistar pessoas tão diferentes entre si não é ofício vulgar, mas sim proporcionador de encontros fugazes, em alguns casos, determinantes para o meu crescimento pessoal. Reencontrei a lição do Coloane quando, acompanhada por Ricardo Araújo Pereira, então estagiário do JL, ouvi Chico Buarque falar sobre as suas paixões futebolísticas; quando, três meses antes de morrer, Al Berto, na esplanada do Príncipe Real, me falava dos muitos projectos que ainda tinha por realizar; quando Fanny Ardant, deslumbrante de elegância, me pedia desculpa por ter de jantar enquanto falava comigo sobre a sua participação no filme Amok, que viera rodar a Portugal. Acrescentarei, para benefício dos jovens jornalistas, que, em quase 20 anos de profissão, os encontros de excepção se contam pelos dedos de uma só mão, mas, como escrevia Keats, «uma coisa bela é uma alegria para sempre». No sábado passado, ao comprar Naufrágios, o livro de Coloane sobre a História Trágico-Marítima dos mares do Sul, não pude deixar de evocar esse momento único que, até agora, guardara só para mim. O ritmo, às vezes desenfreado da agenda, não voltou a fechar-me à possibilidade de uma surpresa. Tornei-me, desde então, uma humilde aprendiz da arte do encontro.